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quarta-feira, 5 de abril de 2017

ANTONIO CÂMARA: Um pouco da história de um dos maiores líderes dos Inhamuns e Ceará

Homenagem do PORTALDOHELVECIO " COISA BOA É QUEM TEM HISTÓRIA PRA CONTAR" .O rompimento de Antonio Câmara com o Governador Tasso Jereissati em 1988: Eles foram as vias de fatos ou não no Balneário da Várzea do Boi? Quem foi o radialista da época que fez a pergunta e tocou fogo no início do rompimento? O bate boca em palanque escutado por Ciro, Sergio Machado e o Ministro Fialho; Porque Antonio Câmara disse  que falaria por último e não o Governador Tasso? Porque Tasso, não quis o almoço de galinha caipira nos Colonos; A parceria com Gonzaga Mota; A demissão do seu primo Dr. Domingos Filho da FUSEC; A adesão de Julio Rêgo a Tasso; A aproximação de Domingos Filho com Tasso em Brasilia; ANTONIO CÂMARA X TASSO JEREISSATI AQUI VOCÊ FICARÁ SABENDO DE UMA DAS MELHORES HISTÓRIAS DA POLITICA CEARENSE                            

Por ocasião do seu natalício ocorrido nesse dia 04/04/17 onde completou 79 anos, o PORTALDOHELVECIO homenageia o grande Parlamentar foi buscar no fundo do baú essa entrevista do Deputado Antonio Câmara, ao Jornal O Povo. Conheça, pelo relato de um dos protagonistas, os animados bastidores de um dos mais tensos momentos da história política cearense
Durante cinco mandatos consecutivos, entre 1975 e 1995, Antonio Câmara foi uma das vozes mais influentes da Assembleia Legislativa do Ceará. Liderou governo e oposição, presidiu a mesa, brigou e conciliou, fez política, fundamentalmente. Hoje, aposentado, mantém uma certa distância do agitado ambiente, mas sua animação é clara quando provocado a falar sobre o que viveu em sua longa experiência de homem público.
A conversa com o ex-deputado, de 76 anos,  flui naturalmente. Há nele uma memória pronta para ser ativada, especialmente relacionada aos bastidores dos duros tempos de relação entre poderes no Ceará quando Tasso Jereissati era governador, na sua primeira gestão, e ele comandava o Legislativo. Boa parte da entrevista trata do assunto, mas há espaço ainda para falar do governo Gonzaga Mota, da Constituinte estadual (que também presidiu) e das perspectivas do novo governo Camilo, dentre outros assuntos.
A entrevista resulta num belo passeio pela história política recente do Ceará, como demonstram os trechos a seguir.
O POVO – O senhor disputou a última eleição para deputado estadual em 1990. Anunciou que desistia da política, a partir dali, dizendo-se decepcionado. As razões que o levaram a abandonar a vida pública se mantêm inalteradas?
Antonio Câmara - Eu diria que hoje não são as mesmas razões. Claro que hoje há a idade, as novas lideranças surgidas que não foram contemporâneos meus, mas, em 1990, logo após as eleições, senti uma profunda decepção com a política.
OP - Em 1990 a decisão já estava tomada, então, embora o senhor ainda tenho disputado a eleição em 1994 como vice de Juraci Magalhães, na tentativa dele de chegar ao governo do Ceará, enfrentando, na época, Tasso Jereissati?
Câmara - Logo depois da apuração. Após a apuração, quando vi os resultados dos votos que me foram atribuídos, fiquei profundamente decepcionado. Decepcionado porque eu tinha sido presidente da Assembleia, presidente da Constituinte estadual e havia procurado ajudar muitas das entidades que congregam os servidores públicos. Eu me indispus com o governador Tasso Jereissati exatamente na defesa destes servidores, evitei a demissão de pelo menos 40, 50 mil servidores, quando foi encaminhada uma mensagem à Assembleia que criava 60 mil cargos, concedia abono ao invés de salário e, o mais grave, pedia para realizar concurso. Ora, servidores admitidos, na época do governador Plácido Castelo, depois Adauto etc, esse pessoal todo deveria ser submetido a um concurso. Seria um concurso-guilhotina, porque estavam todos afastados dos livros, das atividades culturais, muitos eram servidores modestos etc, e foi então que a Assembleia suprimiu o artigo que criava as vagas, sem as quais não podia haver concurso. Além disso, transformamos o abono em aumento, porque assim incidiriam todas as vantagens dos servidores e o governador, então, ficou extremamente chateado com tudo. Extremamente irritado. E passou a nos tratar como adversários mesmo, ou seja, declarou que a Assembleia era coordenada por forças do atraso, por clientelistas que estavam torpedeando o plano de mudanças dele, governador. Ora, a Assembleia até então tinha aprovado tudo que ele pedira, só não aprovou essa questão dos servidores, porque boa parte dos deputados tinha, inclusive, participado de nomeações, havia interesse deles no sentido de se manter os servidores, até porque a Constituição Federal, que estava sendo elaborada na época, já tinha aprovado um dispositivo considerando estáveis os servidores admitidos há pelo menos cinco nos Estados, nos municípios e na União. O temor do governador era esse, ter que manter o pessoal vindo de muitos governos anteriores. Em função de tudo isso apresentei um projeto de lei que disciplinava o concurso público, era mais ou menos julho de 1988, quando ocorreu esse episódio, e concedia prazo aos servidores para se inscreverem e outro ao governo para iniciar o concurso, noventa dias para inscrições, mais 30 depois de publicado o edital, é que o concurso poderia ser realizado. E este concurso seria efetivado em meados de novembro, quando a Constituição Federal já teria sido outorgada e os servidores ficariam a salvo. O projeto de lei, aprovado pelos deputados, foi à sanção do governador, que vetou. Com isso, criou um grande problema para Assembleia, que necessitaria de 31 votos, de 45 deputados, numa situação que parecia favorável ao governo. Afinal, bastavam 15 votos. A verdade é que a votação era secreta e o veto do governador foi derrubado, com 31 votos, uma grande vitória da Assembleia Legislativa, porque as galerias estavam tomadas de servidores e a expectativa era enorme. Caso o veto fosse aprovado eles teriam que se submeter a concurso porque as regras do governo seriam outras e não aquelas que meu projeto de lei criava. O líder do Governo na época era o deputado Ciro Gomes, muito fluente, muito combativo, mas não houve alternativa, o veto foi derrubado e a lei entrou em vigor. Isso irritou muito o governador, mais ainda, porque foi uma pá de cal no seu projeto de reduzir..
OP - Foi a declaração de guerra.
Câmara - Foi a declaração de guerra. Nós tínhamos consciência de que o Governo, o Executivo, a estrutura governamental, não ia bem, por falta de recursos, mas não seria um concurso público ou um outro dispositivo que ele introduziu no projeto e nós retiramos, que suspendia o pagamento do 13º salário. Ora, os servidores do Ceará estavam entre os últimos que tinham conseguido o 13º e o Gonzaga (Mota, antecessor de Tasso Jereissati como governador) ainda concedeu em parcelas, de 30 por cento, 30 por cento e a última de 40 por cento. O pagamento da parcela de 40 por cento coincidiu com o fim do primeiro ano do governo de Tasso, não era justo suspender o pagamento. Não era com uma parcela do 13º salário dos servidores que ele iria resolver os problemas financeiros do Estado, mas a proposta iria criar uma defasagem no orçamento de milhares de servidores que contavam já com aquela gratificação. Então, ele irritou-se, passou a hostilizar e agredir o Poder Legislativo onde ia, em qualquer inauguração pelo Interior, havendo deputado no palanque, dizia que ressalvado aqui o amigo fulano a maioria é clientelista, é força do atraso, que estava fazendo muita força para colocar em ação o seu projeto de mudanças. Claro que o grande ideal do povo era ver as mudanças que seriam feitas. E assim a Assembleia foi desenvolvendo seu trabalho, mas sempre encontrando grande dificuldade, o governador nunca convidou o presidente da Assembleia para qualquer conversa, comunicar que estava mandando essa ou aquela proposta...
OP - Nunca houve qualquer tentativa de diálogo?
Câmara - Houve, quando o vice-governador Castelo de Castro não pode mais esconder a doença que lhe tinha acometido, estava fazendo tratamento em São Paulo, se queria manter o assunto..., o governador precisava viajar para Brasília, atrás de recursos, e não tinha como fazê-lo porque precisava passar o cargo para mim...
OP – Evitar o vácuo institucional.
Câmara – É, mas o certo é que lhe passaram uma história de que não era conveniente que viajasse porque eu teria dito que assumindo o governo demitiria alguns secretários seus, Sérgio Machado e outros mais.
OP – Não era verdade?
Câmara – Não, nunca disse isso. O chefe da minha assessoria de Imprensa na época, o jornalista Dorian Sampaio, chegou a mim com esse assunto, essa história. Eu disse a ele que absolutamente, não tinha interesse em assumir, mas, caso viesse a fazê-lo, cumpriria rigorosamente minha função, era uma questão institucional etc. Certo é que houve um encontro, fomos, eu e outros deputados, o Governador começou e tal.
OP – Clima hostil, ambiente carregado?
Câmara – Não, o clima já era menos carregado. Ele, Tasso, disse que tinha sabido disso e eu negue, falei que não tinha o menor fundamento, não era meu plano mudar nada, mas, aquilo que fosse minha atribuição, iria exercer. Não de maneira atabalhoada. Assim é que ele pode viajar, assumi inúmeras vezes, assumi várias vezes na época do Gonzaga Mota porque o Adauto (Bezerra, vice-governador na época) tinha renunciado antes do final do mandato. No caso do Tasso devido ao fato de o Castelo de Castro ter sido acometido por uma doença grave e, obrigado a fazer tratamento em São Paulo e vinha poucas vezes a Fortaleza. Eu e o governador, então, passamos a ter um relacionamento que você não tem com um amigo, ou seja, se eu puder fazer um favor eu faço. O climax desse rompimento é que o ministro da Irrigação à época, Vicente Fialho, que é de Tauá, conseguiu implantar junto aos colonos de um perímetro irrigado lá na região uma fábrica de banana, que produzia banana, uva etc, e ligou-me pedindo que eu organizasse um evento lá porque ele não tinha muita vivência política e o prefeito era do PDS, enquanto nós éramos do PMDB. Enfim, organizei o ambiente para o ministro ir inaugurar, inclusive me responsabilizando por palanque, som, cerimonalista era um radialista da rádio AM que nós tínhamos lá etc. Fui lá esperar o governador, que marcou a hora, nesse tempo era campo de pouso, e depois seguimos para a fábrica. Primeiro fomos à fábrica e depois haveria os discursos no palanque montado para o povo que eu também havia ajudado a transportar até o local, quem tinha transporte eu pedia pra ceder um, dois carros, não era longe, eram quatro quilômetros...
OP - Isso foi em que ano?
Câmara - Foi em 1987, no final, ou no começo de 1988. Foi 88 mesmo, eu acho. Estávamos visitando a fábrica, parando, o ministro parava, explicava uma coisa ou outra, quando, de repente, um repórter da rádio Cultura, do deputado Júlio Rego, se aproximou e perguntou ao governador...
OP - O deputado Júlio Rego que era o adversário local do senhor?
Câmara - Era. Perguntou sobre a questão do projeto que a Assembleia havia derrubado e se os deputados tinham feito cortesia com o chapéu alheio. Ele disse que não, não era uma cortesia com chapéu alheio, a Assembleia tinha sido irresponsável, totalmente irresponsável, que aquela administração do Poder Legislativo queria boicotar seu projeto de mudanças.
OP - Ao lado do senhor?
Câmara - Sim, ao meu lado. Sai dali, então. Depois, quando ele passou por mim, disse para eu não censurar a entrevista e eu disse: o senhor enganou-se. A entrevista foi para outra rádio, foi para a rádio do seu adversário na eleição e hoje seu amigo (risos). Disse que se fosse na minha eu colocaria toda a entrevista, mas depois iria comentar. Passou. No palanque fiquei pensando que aquilo tudo não ia dar certo, que estávamos no limite do destempero, eu de um lado, ele do outro, eu dizia que ele era um coronel cibernético, e decidi me aproximar dele, que estava com o Ciro Gomes e o Sérgio Machado. Disse a ele: governador, vi o começo da sua entrevista, muito agressiva, o que gera uma outra da minha parte, também agressiva, o que é ruim para o poder Legislativo e para o poder Executivo. Por que não conversamos como pessoas sensatas e se dá uma parada nisso, vamos ver quem tem razão e quem não tem. Estou disposto a não comentar mais suas declarações e tal. Ele olhou pra mim com aqueles olhos azuis dele e disse: não vou parar não! Vou dizer hoje, aqui, para aquela mulher, para aquela senhora com a criança nos braços, que não posso fazer a escola dela porque a Assembleia não deixa. Vou dizer para o povo que não posso melhorar o atendimento médico do hospital daqui porque vocês não deixam, boicotam nossos projetos. Eu disse que tudo bem, não podia fazer nada, a minha parte estava feita, o senhor pode dizer o quiser mas iria ouvir o que não quer. O senhor quando acabar de falar eu vou falar, dizer que é demagogia de sua parte, que o senhor não vai consertar o Ceará com uma parcela do 13º salário do funcionalismo, demitindo alguns servidores, que tudo aquilo era demagogia para enganar o povo, que não tinha havido mudança nenhuma até aquele momento. Ele queimou ruim, então, e disse que era a maior autoridade naquele palanque...
OP - Só os quatro ouvindo a conversa, o senhor, ele, Ciro e Sérgio?
Câmara - Não, em cima do palanque. Tinha jornalistas, inclusive. Enfim, disse que eu não poderia falar depois dele, que era a maior autoridade no palanque, que ninguém poderia falar depois do governador, ainda perguntou se eu não sabia disso. Eu respondi que não entendia de protocolo, de cerimonial, mas estava dizendo que falaria depois dele porque o palanque era meu, o locutor era da minha rádio, o serviço de som era da minha rádio, até o povo que estava ali eu que tinha levado, convidado, o senhor acha que vou sair daqui desmoralizado? Nem pense. A gente já estava falando um pouco alto àquela altura, o Fialho viu que havia um desentendimento e encerrou o discurso. Eu já tinha prevenido o cerimonialista que só me chamasse pra falar se eu desse um sinal, quando ele comunicou que estava prevista a fala de um colono, do ministro, do governador e a minha. Avisei que eu iria apenas se desse um sinal, mas, caso desse, podia ser depois do ministro, do governador, de quem fosse, era pra ser chamado. O certo é que o Fialho encerrou e ele chamou o governador, que foi ao microfone e não disse nada. Parabenizou o ministro, parabenizou os colonos, vocês estão no caminho certo tal e tal, e desceu. O ministro, já todos lá embaixo, disse que os colonos tinham preparado um almoço, uma galinha caipira não sei o quê, mas ele disse que não queria almoçar. Pediu ao Fialho para ser liberado porque não queria ficar ali mais nem um minuto. Pegou o helicóptero e foi pra Guaramiranga, ele, o Ciro, o Sérgio e o chefe da Casa Militar. Isso foi no sábado, domingo veio para Fortaleza e na segunda-feira demitiu o presidente do Ipec, a pessoa que eu tinha mais estima, que era meu parente, foi quem me lançou na política, inclusive: doutor Domingos Gomes de Aguiar. Era o presidente do Ipec, que o Gonzaga Mota havia nomeado no seu governo e o Tasso manteve. Na reunião que tivemos, no início do governo, ele perguntou se aquela pessoa era minha, respondi que sim. Com aquele ato (demissão de Domingos Aguiar) vi que era pra valer, porque se fosse com outra pessoa, mas sendo com o Domingos ele me atingiu mesmo no coração, porque, além de ser alguém pelo que qual tinha a melhor estima era um administrador competente, que estava levando o Ipec a novas coberturas, aumentando a eficiência etc. Então, nomeei o Domingos diretor do Serviço Médico da Assembleia, mas disseram que a disposição não seria aprovada, pode ter sido no ímpeto que ele disse que não era para dar, mas acontece que a Constituição garantia, desde que a nomeação seja para cargo de comissão. Ficou um relacionamento esquisito, a inflação naquela época era alta, de forma que os orçamentos estavam quase sempre se defasando rapidamente, era 80 por cento a inflação, e houve o seguinte: o Estado estava com bastante recursos, porque o (José) Sarney começou a ajudar o governador e ele adotou algumas medidas que, de fato, melhoraram a arrecadação. Só que não tinha dotação no Orçamento, que permanecia defasado devido à inflação, e o governador encaminhou mensagem suplementando o Orçamento do Executivo, deixando de fora a Assembleia e o Judiciário. Guardei a mensagem, então, deixei na gaveta. Uns dois dias depois, o Ciro me procurou, perguntando sobre a mensagem que eu tinha recebido do governador, suplementando o Orçamento do Executivo. Confirmei que tinha recebido e disse que estava na minha gaveta. Ele perguntou, então, quando é que ela seria votada. Disse que colocaria a matéria em votação quando chegasse o da Assembleia e o do poder Judiciário, nós votariamos tudo, não era mais democrático? Ele disse que não sabia, não sabia, mas sabia que eu iria parar o Estado. Eu disse que não tinha culpa, a questão é que estavam querendo parar a Assembleia. Então, vamos parar tudo! Depois disso, me liga o secretário de Planejamento, Antonio Rocha Magalhães, perguntando se eu poderia recebê-lo. Disse que podia, claro, e ele me disse que eu estava criando um grande problema porque o Estado poderia parar, realmente. E que o funcionalismo, ai eu disse que não, não viessem com a história de funcionalismo, porque o pagamento dos servidores não depende de Orçamento, a Constituição não exige empenho etc, tem dinheiro, paga.  Reforcei com ele que a questão era encaminhar também mensagem tratando da Assembleia e ele disse que o governador poderia fazer aquilo por decreto, está previsto, o recurso existe. Eu disse, então: querido secretário, o duodécimo da Assembleia, uma imposição constitucional, pra conseguir a liberação é através do meu 1º Secretário, deputado Luiz Pontes, mais chegado ao Governo. Ele é que vai na (secretaria da) Fazenda, conversa com o secretário, isso com relação a um repasse constitucional, imagina um recurso dependendo de governo? O certo é que continuou na gaveta, Castelo de Castro me ligou, expliquei tudo para ele, que me pediu, 'Toin não faça isso etc', mas eu disse que faria, não tinha como ser diferente. O Tasso, então, encontrou um meio de não participar do episódio, não ceder, mas encaminhar uma saída, ou seja, viajou e o próprio Castelo encaminhou a mensagem.
OP - Ele não fez, mas o governo fez?
Câmara - O governo fez. Quer dizer, são coisas que se houvesse entendimento, custava nada conversar, explicar que não podia encaminhar a matéria naquele momento...
OP - De qual maioria dispunha o governo na Assembleia naquele momento?
Câmara - Era boa, no voto aberto. No voto secreto a coisa era mais apertada. O ambiente ficou assim, então, eu assumi o governo e o (Airton) Angelim (chefe de gabinete do governador na época) me informou que o governador sempre almoçava com os secretários da Casa e tal. Perguntei quem era e ele disse que era o Sérgio Machado, o Assis Machado, ele próprio e eu disse que o considerava gente boa, com ele almoçaria em qualquer lugar, mas com aquela turma não dava. Vou almoçar mesmo em casa, informei. O governador demitiu todo o pessoal ligado a mim, Tauá era sede de uma região administrativa, tinha coordenador de assistência médica, tinha coordenador de não sei o quê...
OP - O senhor já tinha quantos mandatos, na época?
Câmara - Era o quarto mandato.
OP - Era o pior momento do relacionamento entre os poderes que o senhor já tinha vivenciado?
Câmara - Foi, porque meus líderes eram chamados a Fortaleza para conversar com o Sérgio Machado, muitos deles se desligaram de mim e passaram a apoiar o deputado Julio Rego, que estava definitivamente aliado ao governo.
OP - O senhor atribui à situação, portanto, a votação baixa que teria na eleição seguinte, em 1990, apesar de reeleito?
Câmara - Olha, em 1986 eu tive quase 32 mil votos, dava para eleger um deputado federal na época. Na minha primeira eleição, tinha obtido 14 mil e poucos votos, ficando lá pela 20ª colocação, fiquei entre os 25 primeiros. Pois em 1990 foram 15 mil votos.
OP - Houve uma ação direcionada contra a candidatura do senhor?
Câmara - Houve, a partir desse episódio da desaprovação das propostas que prejudicavam os servidores começou o trabalho. Prefeitos que eram da minha coligação, aliados políticos, deixaram de frequentar meu gabinete, só voltaram no final, já perto das eleições, com  medo de perseguição. Eu não tinha dinheiro para enfrentar uma eleição comprando voto, graças a Deus fiz um trabalho de ajudar meus municípios, ajudei muito no governo do Virgílio (Távora), no governo do Adauto (Bezerra), do Gonzaga Mota, eles me ajudaram, conseguindo obras, estrada, energia, mas no governo do Tasso não levei nada e nem tinha dinheiro para suprir isso. Pensei, então: se vou vender uma fazenda que herdei, se vou vender apartamento que comprei financiado, para ter um mandato? Não tem sentido!
OP - O governo seguinte, de Ciro Gomes, permitiu uma reaproximação?
Câmara – Permitiu não.
OP - Inclusive por serem perfis muito diferentes, comparando-se Tasso e Cid, não é?
Câmara - Era, mas havia certos assuntos que o Ciro tinha que cumprir, ou seja, se ele dá uma abertura para mim seria uma tapa na cara do Tasso. Seria um desacato, até, porque ele sabia que nosso relacionamento era péssimo e o Sérgio Machado era o executor disso. Pior é que votei no Expedito (Machado, pai de Sérgio) para deputado federal, porque era muito ligado ao Gonzaga, eu era secretário de Governo, ele ia muito pra lá, nós conversávamos, pedia ajuda e lhe dei quase 10 mil votos.
OP - Fora da política, observando tudo à distância, hoje, o senhor diria que ele é um político diferente? Percebe isso?
Câmara - É. Aliás, quando do primeiro mandato de senador ele já estava diferente. Lembro que uma vez o (então) deputado Domingos Filho foi a Brasília resolver uns problemas dos municípios que representava, Tauá, Parambu e tal e precisou de um apoio lá. Procurou o Tasso ou o Tasso se ofereceu, não lembro, o senador Tasso Jereissati, e o Domingos esteve aderindo porque esse contato se transformou num bom relacionamento e o Domingos me disse: olha, o Tasso hoje é uma pessoa que você dialoga com ele, conversa, que lhe ajuda, se puder, então me consultou dizendo que estava pensando na adesão. Perguntou o que é que eu achava e lhe disse que nem batia palmas e nem jogava pedra. Você é quem sabe o que é bom pra você. Ele, então, resolveu ficar no PMDB, onde tinha muito mais espaço. O Tasso é outra pessoa, do ponto de vista político, não tem mais aquela arrogância, aquela impetuosidade, do quero e posso, de afrontar o Legislativo, o Judiciário, é homem que aprendeu.
OP - Foi a política que melhorou ele?
Câmara - Foi a política, foi. E acho que esse período em que ele foi senador de oposição lhe permitiu sentir, primeiro, que a oposição é necessária. Segundo, sentiu que destruir a oposição não é tão fácil, o PT não conseguiu destruí-lo, ele também não conseguiu me destruir, porque quando vi que a situação estava muito difícil encontrei uma liderança capaz de continuar meu trabalho, o Domingos Filho, que ficou na oposição durante muito tempo, até a candidatura do Cid (Ferreira Gomes) ao governo. O PMDB era oposição ao Tasso, como ainda hoje é.
OP – Agora não, considerando a aliança do partido com o PSDB nas eleições majoritárias de 2014. 
Câmara – Essa aliança do Eunício foi uma que, assim, ocorre. O PMDB é assim.
OP – O senhor fez menção ao governo Gonzaga Mota, do qual foi um dos articuladores principais, chegou a ocupar a secretaria de Governo, inclusive. Foi um período de muitos rompimentos, também, alguns ruidosos, a começar por aquele inicial com os coronéis, depois no Colégio Eleitoral liderou voto do seu grupo no Tancredo Neves e não no Paulo Maluf. Foi, porém, uma gestão que terminou mal, inclusive, parte dos problemas que o governo Tasso enfrentou foi herança dele. A história faz justiça com Gonzaga Mota, analisando-se o período que governou o Ceará?
Câmara – Não. Costumo dizer, quando nos encontramos, que ele não precisa escrever nada, ele já é história. Ele foi a maior vítima de tudo isso, o governo Gonzaga Mota procurou trabalhar com os coronéis, os deputados tinham acesso, os secretários muitos eram ligados ao César Cals, ao Virgílio, só que o Gonzaga foi também, o que era natural, formando seu grupo. Eu era secretário de Governo no momento mais tumultuado......
OP - Na fase em que se deu o rompimento.
Câmara – Na fase do rompimento. Eu próprio, pra tentar evitar o rompimento com o Virgílio, por quem tinha a maior admiração, fiz um encontro na minha casa, meu apartamento, dele com o Virgílio.
OP – O acordo entre Gonzaga e os coronéis, garantindo um terço do secretariado para cada um deles, realmente existiu?
Câmara – Não. Os deputados puseram na cabeça é que tinham direito a indicações por serem ligados ao coronel tal, nem pessoalmente eles tinham atrito. O atrito que havia era na base, era do grupo do Marconi (Alencar) com o grupo dos Bezerra, do Adauto.
OP – Não era entre os líderes?
Câmara – Não, não era. O Adauto tinha franco acesso às coisas do governo, era vice-governador, assumia tranquilo, nomeava etc, agora, quando o Gonzaga optou por uma candidatura fora do PDS a nível nacional, quando vinculou-se a Aureliano (Chaves), José Richa, Tancredo (Neves), (Franco) Montoro....
OP – Numa época que exigia coragem para esse tipo de atitude, não é?
Gonzaga – É, mas a situação lhe deu projeção nacional. Uma vez estava no Rio de Janeiro, ele também, e nós fomos caminhar na orla, em Copacabana, de manhã cedo, e fiquei surpreso com as pessoas cumprimentando-o. Ele tornou-se um ícone da coragem política de um governador de romper, mas houve retaliações. A ordem passada pelo ministro Delfim Neto era que não houvesse repasses federais, mas, apesar destas retaliações, ele não mudou de postura. Pelo contrário, foi avançando. Ele não diz, mas foi vítima do Tasso. A imprensa daqui não dava a cobertura que o Tasso gostaria, por motivos óbvios, então ele passou a usar a imprensa do Sul e Sudeste, usou TV Globo, você está assistindo a novela e de repente aparece um noticiário falando de um rombo no Banco do Estado do Ceará etc e tudo isso esmaeceu a imagem do Gonzaga, depois que ele entregou o governo. Enquanto ele foi governador não, teve total prestígio. Quando o Gonzaga ficou aqui no ostracismo, vítima de noticiários maldosos, porque nunca houve rombo no BEC, desfalque no BEC, o rombo veio depois, na verdade, ele vivia no escritório que o (empresário Júlio) Ventura tinha cedido para ele, onde recebia os amigos. Chamei o Paes de Andrade e pedi a ele que conseguisse uma audiência com o Sarney, que eu levaria uma comissão de deputados para a gente pedir que cumprisse a palavra e entregasse um ministério ao Gonzaga. Não podendo ser um ministério, que fosse um banco desses, era um homem com grande capacidade de trabalho e tal. Ele, Paes, e o (senador) Mauro Benevides conseguiram a audiência e nós fomos, somente não participaram aqueles deputados que dependiam mesmo do Tasso, que tinham medo dele, e fomos recebidos. Para minha surpresa, não sei se foi o Paes ou o Mauro, anunciou que eu falaria em nome da bancada federal e da bancada estadual do Ceará. Eu disse, então, presidente, ele estava no auge, Gonzaga representava para o Ceará o que ele (Sarney) era para o Brasil, representava o retorno à democracia, liberdade, destaquei o trabalho que ele tinha realizado, ao lado do Richa, do Montoro, do Tancredo, e lembrei que ele permanecia em Fortaleza, no Ceará, no ostracismo que o pior adversário não merecia. Destaquei que havia um compromisso, pelo menos se especulava nesse sentido, do aproveitamento dele no governo federal. Sarney disse que nunca tinha saído de sua mente aquele momento em que seguia no avião, junto com o Tancredo, para uma cidade, e o piloto informou haver recebido pelo rádio a informação de que os deputados do Ceará tinham eleito seis representantes para o Colégio Eleitoral e todos comprometidos com a candidatura de Tancredo Neves. Ele disse que aquilo lhe tinha criado na cabeça um pensamento horrível, porque um dia antes havia perdido os seis delegados do Maranhão, por pressão da Polícia Federal, depois recuperados numa briga judicial, mas, enfim, disse que nós podíamos ficar tranquilos. Porém, nunca fez nada. Quem ouviu aquilo, no entanto, ficou pensando: por que ele não foi? Deve ter sido uma pressão muito grande, só pode, e o Tasso estava ainda vestido naquela personalidade que não admitia pessoas que não eram do seu esquema, não rezavam na sua cartilha. Não foi um processo fácil. Você sabe que o Maluf se elegeu governador sem ter maioria na convenção de São Paulo, não é? Um homem que tinha dinheiro sobrando, não foi fácil. É como ele disse lá na minha casa, no meu apartamento, eu já o conhecia, apresentado pelo Claudio Philomeno, o Virgílio também já tinha me levado até ele... Fui ao Virgílio na época da convenção e lembrei que ele havia me indicado convencional (do PDS), então, queria saber o que era pra fazer. Estava ali para seguir sua orientação e ele informou que era para votar no Maluf, o (Mário) Andreazza não era mais o candidato. Segundo explicou, porque o vice do Maluf era o Flávio Marcílio. Votei na convenção no Maluf, então, mas disse que era o último ato com relação a isso, porque o governador estava trabalhando num outro sentido e eu iria acompanha-lo. Guardo a ata da convenção até hoje (pega um envelope em cima da mesa e tira de dentro uma folha de papel), feita pelo Osmar Diógenes. Está aqui, às 20 horas do dia 26 de outubro....
OP - É da reunião do PDS?
Câmara – É, do PDS. Era o seguinte: a bancada majoritária de cada Assembleia escolhia seis deputados para irem ao Colégio Eleitoral. No Rio de Janeiro era o MDB, aqui, o PDS. Nós fizemos a eleição na Assembleia, com o Virgílio lançando uma chapa, que tinha o Aquiles, Julio Rego etc, e nós lançamos outra, com três nomes do Adauto e três do Gonzaga, e ganhamos. Em chegando lá a boataria estava no mundo, indicando que quem fosse do PDS e votasse no MDB seria cassado, por infidelidade partidária. Alguém do PDS entrou com uma consulta no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, um dos deputados federais do partido que iria votar no Tancredo, e decidiu-se que não era ato de infidelidade, era uma opção de cada um tal e nós votamos. Por isso é que votei no Aécio agora. Lembro que quando o Maluf foi me visitar, perguntou se eu conhecia o Tancredo e, claro, respondi que não. Ele perguntou como é que deixava de votar nele, que era meu amigo, a quem eu conhecia de tempos, para votar em quem não conhecia? Expliquei que era coisa da vida, uma questão de lealdade ao governador.
OP – Como o senhor enxerga a política hoje? Lembro que na época em que o senhor e o deputado Júlio Rego disputavam o eleitorado de Tauá uma ocasião praticamente ficaram com todos os votos, mais de 96 por cento deles. Isso não tem mais como acontecer dentro da nova realidade política, não é? É um sinal de avanço ou retrocesso do processo eleitoral? A comunidade local perde?
Câmara – Perde. Eu ainda tenho fazenda em Tauá e vou sempre lá, ultimamente com a seca até tenho ido menos. Antes, costumava passar uma semana por mês lá e notava, notei sempre, as pessoas do povo reclamando cadê o deputado, fulano, cadê. Eu perguntava: ele não andou aqui, não? Diziam que não, quando ele vem...
OP – Isso abre espaço para aventuras, para aventureiros?
Câmara – Quando eu era deputado, eu ia para a casa do Domingos, o velho Domingos Aguiar, sentava na calçada e se fazia aquela fila de cadeiras, todo mundo conversando, uns iam para feira, outros para o bar tomar uma cerveja etc. Conseguia-se, com isso, perceber os problemas que cada um tinha, um reclamava do telefone, outro era um ramal de estrada, outro um ramal de energia, outro era um emprego, por ai seguia. Agora é dinheiro, desde o Tasso pra cá o poder econômico passou a interferir muito nos resultados. Quem não gastou dinheiro nessa eleição, dançou.
OP – Hoje não é mais possível alguém com esse tipo de comportamento se eleger?
Câmara – Não. Ou se faz uma oposição ideológica, faz uma oposição pra valer, tipo o Heitor Férrer, ou gasta dinheiro; ou é governo mesmo.
OP – Há a ideia, porém, de que esse tipo antigo de prática configura a imagem do curral eleitoral, dos votos sob controle direto do político.
Câmara – Não, não, isso ai é uma teoria. É uma forma agressiva de se referir, porque se o vereador mora no distrito e ele é assediado para cuidar de um doente, para resolver um problema, ele vai fazer e é normal que depois peça o voto. Tauá, por exemplo, tem sete distritos e quando me elegi deputado pela primeira vez apenas um deles tinha energia elétrica, só um. Era 1974. Dai pra frente consegui eletrificar todos os distritos, terminei no Gonzaga Mota, quer dizer, isso tinha retorno quando chegava a eleição. Não precisava eu ir lá, oferecer as coisas e tal, era natural.
OP – Nesse sentido, o voto distrital seria uma boa novidade no processo político-eleitoral brasileiro?
Câmara - É o mais sadio. O voto distrital vincula o representante à área geográfica e é o mais sadio em termos de política, porque ele tem um trabalho concentrado. Hoje um deputado é votado no Crato, em Camocim, em outras cidades nas quais ele sequer vai e ocorre que para suprir isso só com dinheiro. Eleição dá despesa, dá despesa, no meu tempo era transporte, alimentação.
OP – O financiamento público é outra ação que o senhor vê com simpatia para mudar o quadro?
Câmara – Reduziria (os problemas), embora não evitasse totalmente. É muito difícil um sistema que atenda a todos os requisitos, um sistema ideal, não existe. Nos Estados Unidos, por exemplo, diz-se quer os candidatos gastam milhões em divulgação, em televisão...
OP – Vamos olhar um pouco para frente, agora. Antes disso, gostaria de saber se o senhor acompanhou o processo que levou à indicação do candidato governista, numa lista que incluía o nome do ex-deputado Domingos Filho, que o sucedeu na liderança do grupo político de Tauá. O senhor sabe dizer por que ele não foi o escolhido?
Câmara – Na minha opinião, o Domingos reunia as melhores condições para ser o candidato, não apenas para ele como para o grupo. Ele é uma pessoa de diálogo, que sabe conduzir as discussões políticas e a prova é que, quando foi eleito deputado pela primeira vez, recebeu um colégio eleitoral limitado ali aos Inhamos e mais alguns votos em Fortaleza, e conseguiu ampliar, tornou-se uma liderança estadual. Então, é um articulador nato. Como vice (governador) ele teria assumido o governo e, primeiro, só poderia ser governador por mais um mandato. Segundo, liberaria o governador Cid Gomes para disputar uma senatória; terceiro, devolveria o Governo ao grupo por não ter mais condição legal de se candidatar. Numa pesquisa que antecedeu a escolha do candidato pelo Cid, Domingos foi citado por 22 por cento dos entrevistados, o Eunício teve 40 e tantos, ele veio depois, em seguida o Roberto (Pessoa), 19, e os outros candidatos ao esquema do Cid ficavam todos abaixo de 15 por cento. Além do mais, demonstrou uma lealdade sem limites ao esquema dos Ferreira Gomes, desde a primeira eleição, quando era presidente da Assembleia e articulou tudo que o governo queria, precisava, para implantar esses mecanismos de progresso que existem no Ceará. Foi eleito presidente da Assembleia por unanimidade, não é fácil. Não entendi muito, mas, também, não participo de questões políticas que definam candidaturas, meu tempo passou. Quando decidi deixar a política foi num momento de reflexão, estava só, numa fazendinha que tinha aqui perto de São Gonçalo do Amarante, vinha de Tauá, após apuração, e com o resultado de 15 mil e poucos votos...
OP - A decisão que o senhor tomou foi imediata, então, em cima do resultado.
Câmara - Foi, foi. Quinze mil votos, estava lá numa rede no alpendre, o pessoal já dormindo, ouvindo uma rádio, não lembro qual mas sei que era tassista, e o locutor abriu o telefone e as pessoas ligavam perguntando a maioria disso, a maioria daquilo, quem é que estava eleito etc. Um mais afoito ligou e perguntou como estava o deputado Barros Pinho e o locutor dizia rodou. E o deputado Nilo Sérgio? Rodou. O deputado Franzé Moraes? Rodou. E o deputado Narcélio Limaverde? Rodou. E foi citando os anti-tassistas até perguntar: e o deputado Antônio Câmara? Tá numa peinha de nada, disse o locutor (risos). Ai disse tá, não me candidato mais. Fui a Tauá, procurei o Domingos e informei que não dava mais e tínhamos quatro anos para a escolha do novo nome. Perguntei se ele queria ser e ele disse que não, alegando que eu, mais novo, estava abrindo... Ele perguntou, então: e o Dominguinhos, meu filho? Disse que o considerava bom, mas havia necessidade de começar a trabalhar logo, havia uma estrutura à disposição, carro de som, uma rádio AM, que passei para ele, mas, também, foi a única vez que trabalhei pesado, sem ser candidato.
OP - Quanto ao governador eleito, Camilo Santana, qual a expectativa do senhor?
Câmara - Olha, ele não é da minha geração. Conheço bem o pai dele, com quem tenho uma amizade de muitos anos, fomos colegas de colégios, em Baturité, Domingos Sávio, Salesiano, lá por 1950, 51, depois na Assembleia fomos companheiros, ele foi Constituinte...
OP - Quanto à Constituinte, aproveitando, há uma avaliação que vi feita várias vezes de que a Constituição do Ceará é uma das mais restritivas do Brasil. O deputado ficou com poucas possibilidades de produzir leis, o que seria resultado, também, de interesses manifestos pelo governador da época, Tasso Jereissati. O senhor concorda?
Câmara -  Olha, se houve pressão do governador Tasso Jereissati na época da elaboração da Constituição ela não teve influência nenhuma. O governador tinha uma bancada, ela apresentava emendas, mas desde que a maioria, que atendia meu comando, nunca houve pressão direta para isso. A Constituição não é restritiva, restritiva é a Constituição Federal. Quando um deputado não pode apresentar projeto de lei que resulte em despesa, ele não pode fazer nada. Até um título de Cidadania, se for ao pé da letra, produz despesa porque tem um coquetel etc etc. Pelo contrário, a Constituição Estadual foi participativa, nós fomos a vários municípios regionais, a Sobral, ao Cariri, ao Inhamuns, Crateús, nos reunimos com entidades de classe, sindicatos, recebemos propostas de Igreja, todo mundo que queria participar fazia sua proposta, que era analisada, adequada à linguagem jurídica, o professor Fávila Ribeiro, um grande constitucionalista, tinha essa missão, e, na verdade, o Governo entrou com inúmeras ações, as chamadas Adins. Em muitos casos o Supremo (Tribunal Federal , STF) concedia uma liminar para depois julgar o mérito, coisa que nunca fez. Ora, basta lhe dizer que a nossa Constituição, até tiraram isso, era tão liberal que permitia ao cidadão apresentar um projeto de lei. Outra coisa é que se criou regiões administrativas, considerando o potencial econômico e não a força política.
OP - Voltando, então, à expectativa do senhor em relação ao governo Camilo Santana, prestes a começar.
Câmara - Eu, como disse, sou de uma outra geração, nunca tive contato com ele, mas, espero que tenha apoio do governo federal para dar seguimento ao trabalho feito por Cid, um governador que foi muito operoso nos seus dois mandatos. Embora ele tenha dito que o governador Tasso foi o maior governador de todos os tempos, acho que ele andou perto de superá-lo. Há uma interrogação no ar, isso ninguém pode obscurecer. Uns acham que ele (Camilo) vai ser um simples marionete, outros acham que ele vai ter independência, mas o que sei é que em governador não se manda. A minha experiência com Gonzaga Mota, Tasso Jereissati mostrou isso, e, além disso, como você pode mandar em quem ocupa o cargo mais importante do Estado sem dispor de um mandato? Deve haver um ambiente de harmonia entre ele e os Ferreira Gomes, pois, do contrário, não vai terminar tudo na lua de mel em que se encontram hoje.
OP - E o fato dele ser do PT pode gerar alguma tensão a mais?
Câmara - Bom, os Ferreira Gomes escolheram o PT, num passado recente, para bater. Bateram na Luizianne (Lins, ex-prefeita de Fortaleza e deputada federal eleita), bateram no quadro nacional, o Ciro fez isso. Agora, o saco de pancada é o PMDB, não é?
Jornal O Povo/Guálter George/portal do Helvecio

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