Ads 468x60px

quinta-feira, 9 de março de 2017

BELAS GUERREIRAS: Mulheres conquistam destaque nas forças de segurança do Ceará


Diariamente, mais de 1.600 mulheres saem de suas casas com um único objetivo: salvar vidas. São peritas, bombeiras e policiais civis e militares, que encontraram nas forças de segurança do Ceará espaço para ascensão profissional e se tornaram exemplo de superação. A presença feminina tem se tornado cada vez mais crescente e não só entre os postos de trabalho iniciantes, mas à frente dos órgãos e em posições de destaque. A suposta fragilidade feminina não tem espaço para quem contribui na elucidação de crimes, atende ocorrências, cuida da manutenção de aeronaves, ministra aulas e, antes de tudo, doa suas vidas em prol da segurança de outras pessoas.

Atualmente, mais de 1.600 mulheres compõem os quadros da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), das Polícias Civil e Militar do Estado do Ceará (PCCE) e (PMCE), do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará (CBMCE), Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) e da Academia Estadual de Segurança Pública do Estado do Ceará (Aesp). Elas atuam na elucidação de homicídios, na formação de novos policiais, em resgate a vítimas de acidentes, em perícias técnicas, no combate a incêndios, no apoio aos colegas de profissão e no que mais for preciso. Para explicar melhor o impacto causado pela presença feminina nas vinculadas e coordenadorias da SSPDS, escolhemos seis personagens que vivenciam de perto o que significa ser uma agente de segurança mulher em território cearense. 

No ar

“Quanto mais rápido a aeronave voar, mas vidas serão salvas. A gente corre contra o tempo pra ver o helicóptero voando”. A declaração é de Mayra Fátima Ramos Sales, que trabalha na Sessão de Manutenção Aeronáutica (SMA) da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer) da SSPDS. Ela é soldado da Polícia Militar e há aproximadamente um ano atua na coordenadoria. 

Mayra, juntamente com outra militar e alguns mecânicos, compõem a equipe responsável pelo conserto e manutenção das aeronaves da Ciopaer. A soldado tem a incumbência de verificar os processos que solicitam reparos e compras de peças necessárias para os transportes. O processo é acompanhado por ela desde o pedido à execução. “A gente sempre tem mais cuidado com peças chaves, como as hélices”, explica Mayra, ao contar que as manutenções são feitas a cada seis e 12 meses, por exemplo.

“Me sinto honrada em trabalhar aqui. Tenho honra de ver o helicóptero salvando uma vida porque a gente, de certa forma, permitiu que isso acontecesse. Durante o Carnaval, por exemplo, a gente ficou o tempo todo observando o que as aeronaves precisavam”, declara a soldado, ao ressaltar que seu maior desafio é o tempo.  Para melhor desempenhar a função, alguns cursos são ofertados na própria Ciopaer, além de outros, fora, como o de documentação técnica e de mecânica, para os policiais terem conhecimento mais aprofundado da área.

Mayra está na PMCE há mais de quatro anos e, ao longo desse período, já passou pelo Comando de Policiamento Comunitário (CPCom), conhecido como Ronda, Batalhões de Policiamento Turístico (BPTur), de Polícia de Choque (BPChoque) e pelo Policiamento Ostensivo Geral (POG). “E aqui eu quero ficar”, finaliza a PM, sobre seu desejo de permanecer na Ciopaer por lá ser um lugar onde ela sempre quis estar.

Na perícia

As perícias de verificação de áudio e comparação de voz, entre outros exames com arquivos de áudio, passam pelas mãos de Ana Márcia Araújo Martins – perita criminal adjunta da Pefoce há mais de 20 anos. Ela trabalha no Núcleo de Perícias em Tecnologia e Apoio Técnico, com utilização de software específico, em uma equipe composta por dez pessoas. 

“É muito gratificante conseguir dar retorno em uma questão que o juiz ou delegado estão em dúvida e que o nosso trabalho vai ajudar na elucidação”, destaca a perita. Para ela, o grande desafio de sua profissão é ver o sofrimento humano, as cenas de tortura e homicídio, principalmente quando envolvem crianças. “Mas temos que manter o profissionalismo”, reforça. 

O continuo estudo para acompanhar o avanço das tecnologias também fazem parte de sua rotina. Para se aperfeiçoar na atividade, Ana Márcia participou de um treinamento em Brasília – curso de verificação e locutor – onde teve aulas com engenheiros de telecomunicação, professores de linguísticas e peritos da Polícia Federal (PF). “As novas turmas estão cheias de meninas muito preparadas e com muita garra, que são bem comprometidas. Na minha época, não existia tanta policial feminina nas ruas, nem bombeiras e as peritas eram poucas. Hoje, encontramos peritas em todos os setores, inclusive em locais de crime e em cargos de chefia. Uma equipe diversificada é mais interessante. É importante esse trabalho em conjunto”, declara Ana Márcia. 

Na investigação

Por falar em local de crime, a inspetora Vitória Régia Holanda da Silva é especialista no assunto. Ela é chefe de investigação do 12º Distrito Policial, que fica no bairro Conjunto Ceará, além de ministrar aulas sobre preservação de local de crime, de inteligência e de investigação na Aesp. Com 11 anos na Polícia Civil, ela já passou por várias delegacias distritais e especializadas.

“Eu tenho amor por isso aqui. Tenho vício por isso. Tenho dedicação e prazer em ajudar as pessoas”, declara Vitória, sobre sua profissão. O trabalho desenvolvido por ela consiste em coordenar a equipe de investigação no trabalho policial, visando à elucidação de um fato. Em sua carreira, ela nos conta que já fez parte da solução de casos como no achado do corpo de um italiano desaparecido, em 2009; na captura de um homem suspeito de pelo menos 20 homicídios, em 2013; na recuperação de fuzis roubados da base aérea, em 2016; em uma ação que resultou na prisão de um estuprador, em 2016; entre outros. O caso mais recente que contou com a atuação de Vitória foi a investigação sobre o homicídio de Dandara dos Santos (42), ocorrido no dia 15 de fevereiro, no bairro Bom Jardim.

“O que eu tenho é o reconhecimento da categoria e da sociedade, além de ganhar a confiança das pessoas”, destaca, ressaltando que seu trabalho também exige algumas abnegações. “Sempre tive um trabalho intenso, com várias noites sem dormir e fora de casa, inclusive algumas vezes meus filhos tiveram que ficar só. Mas essa abnegação tem que ser dosada”. Ela ainda destaca que atenção à família é fundamental.

A inspetora acrescenta que não descuida da vaidade e que costuma trabalhar sempre maquiada, inclusive com sapatos de salto alto à disposição. “Existe um receio na força física da mulher. Para que isso não acontecesse comigo, me dediquei e quis ser muito profissional. A mulher tem que ser a melhor. Não é sexo frágil. Mas a diferença não está em mostrar a força”, finaliza a investigadora, ao destacar que características femininas são fundamentais na elucidação de um crime, como a perspicácia, por ser observadora e também atenciosa. “A mulher tem mais sagacidade na conversa e passa mais confiança”, conclui. 

Tiro ao alvo

A primeira e atualmente única policial civil que é instrutora de tiros credenciada pela Polícia Federal se chama Raimunda Necy Pinheiro Parente e é campeã estadual e nacional em competições de tiros. “Sou muito apaixonada pela Polícia e pela educação. Eu adoro dar aula. Meu maior presente é quando meus alunos aprendem”, declara Necy, que é escrivã da PCCE e também formada em pedagogia. Ela ministra aulas teóricas e práticas para todas as corporações, em cursos de formação na Aesp. 

Nercy uniu a paixão pela educação e pela prática de tiros esportivos e encontrou nas forças de segurança a oportunidade de desenvolver as duas funções. A inspiração pelos disparos veio do pai, que também participou de competições em outros países, é fundador do estande de tiros da Polícia e foi professor de tiros da PCCE. A policial ministra aulas sobre tiro policial defensivo, prática, manuseio da arma, como municiar, carregar e montar, entre outras disciplinas. “É de fundamental importância passar para eles (alunos) como manusearem o armamento com segurança e eu sou muito rígida em relação às normas de segurança’, destaca a instrutora.

Ela é policial há mais de 25 anos e nos últimos dez se dedica a ministrar as aulas, além de também ter formação em Direito e ser pós-graduada em Gestão Pública. “Me sinto realizada, porque faço o que eu gosto. O desafio seria não trabalhar nisso. Para mim, seria uma grande tristeza”, conclui Necy, ao destacar que sempre incentiva seus alunos a alcançarem seus objetivos e a não desistirem antes mesmo de tentarem. “As pessoas que nunca atiraram acham as armas pesadas e sentem dificuldade. Mas devagar vão se familiarizando. As mulheres são mais sensíveis, mais delicadas. Quando uma das minhas alunas diz que não vai conseguir, eu falo que dizer isso é proibido na minha aula. No final, elas conseguem”, comemora a policial, instrutora, atleta e educadora.

À frente da tropa

Tira serviço na rua e atende as mais variadas ocorrências, é subcomandante de uma Companhia, trabalha como supervisora de área, é estudante e sonhadora. Entre tantas funções e atributos, Dayane Teixeira Rodrigues é tenente da Polícia Militar e vai completar oito anos na instituição. Mas não para por aí, ela pretende ir mais além. A policial trabalha na Área Integrada de Segurança 7 (AIS 7), no subcomando da 2ª Companhia do 12º Batalhão. A cada três dias, ela assume o posto de supervisora da área e seus horários mudam conforme a escala, conciliando com o expediente na Cia.  

A história de Dayne na PM já é de superação. A área onde ela atua como oficial é a mesma onde ela ingressou como aspirante. “Quando voltei pra cá (AIS 7), fiquei muito receosa e tive medo de as pessoas não me enxergarem como líder, mas tudo é questão de postura. A tropa respeita”, conta. A policial ainda diz que ouviu boatos de que teria problemas por ser mulher, mas isso não foi obstáculo e nem se concretizou em seu trabalho. “Eu escolhi voltar, porque fiz amigos aqui e já conhecia a área. Assumi esse desafio”.

A tenente fiscaliza os policiais que estão na rua, dá apoio em ocorrências e sempre fica por dentro do que acontece na AIS 7. Em um comparativo do seu serviço como soldado e como tenente na mesma área, ela avalia que, hoje, a responsabilidade é bem maior. No início de 2017, ela fez um estágio no Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) e conta que futuramente pretende atuar no Comando de Policiamento com Cães (CPCães) e, também, chegar ao posto de coronel. “Minha maior conquista é a ascensão profissional”. Dayane resolveu fazer o concurso da PM depois de ver uma ação de militares que visitavam as casas da sua vizinhança, em um trabalho de Polícia comunitária. O que chamou sua atenção foi ver uma pfem atuando. “Quando eu olhei pra ela, fiquei encantada”, relembra. Ela também é formada como assistente social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e se utiliza dos ensinamentos adquiridos na academia para lidar com as pessoas na corporação e nas ocorrências.  

“Digo às mulheres (da PMCE) que são se intimidem. Quando a gente veste a farda, representa o Estado. Esta foi a profissão que a gente escolheu e não podemos nos acomodar. Há muito tempo que o número de mulheres na Polícia é crescente”, declara. Ela ainda ressalta que ser policial estava entre as profissões que eram encaradas pelo senso comum como sendo masculina. “Antigamente, a imagem do policial era masculina, forte... Mas tudo se trata de postura, de técnica nas ações e abordagens”. Encerra a tenente, que também almeja ser comandante da PMCE. “Quem sabe...”. 

No socorro

“Me sinto muito realizada e honrada com a minha profissão, por fazer parte de uma Corporação cujo lema é "Vidas alheias e Riquezas Salvar”. Me sinto ainda mais orgulhosa quando as pessoas na rua, nas ocorrências, me param para parabenizar por ser mulher e ser bombeira”. A declaração é de Carolina Olinda, tenente do Corpo de Bombeiros. A oficial atua na corporação ha mais de dois anos e presta serviço no Núcleo de Resgate e Emergências Pré-Hospitalares (NREPH).

O trabalho consiste em fazer o atendimento inicial à vítima enquanto o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não chega ao local da ocorrência ou em casos específicos que tenham zonas de risco, como no socorro a pessoas presas em ferragens de veículos, por exemplo. Ela é formada em ciências biológicas pela UECE e mestre em fisiologia humana.

Carolina também atua como comandante de viatura e recorda que, em uma ocorrência de incêndio em uma loja do Centro de Fortaleza, chegou a ficar mais de 30 horas no serviço. Além disso, ela é responsável pelas instruções e recapacitações da tropa, bem como pelo almoxarifado do Quartel.                         

“Pra mim, é muito gratificante ser bombeira. Sofri um pouco de preconceito no começo. A gente escuta algumas pessoas falarem que acham que não temos força nem como superar os limites físicos, mas hoje eu sou muito respeitada porque provo que sou capaz”, enfatiza. Ela participou do curso Pré-Hospital Trauma Life Support (PHTLS), voltado para área médica, em São Paulo, para ministrar recapacitações para toda a tropa do CBMCE.                       
Para terminar, a bombeira deixa um recado: “O lugar de mulher é onde ela quiser, e que ela nunca subestime a força que existe dentro de si. O preconceito existe até que consigamos provar que somos capazes de realizar as missões que nossa corporação exige”.


Fonte: SSPDS

0 comentários:

Postar um comentário